Review: A Cabana (2017)

Sem título

“Pássaros são criados para voar. Vocês, por outro lado, foram criados para serem amados. Viver sem ser amado é como cortar as asas de um pássaro… É por isso que você está aqui, Mackenzie. Essa é sua lição de voo” (Papai)

A Cabana é um filme americano produzido pela Summit Entertainment ,com duração de 132 minutos, classificado como drama cristão, e lançado no Brasil em abril deste ano. Trata-se de uma adaptação do livro de mesmo nome lançado em 2007 e escrito por William P. Young.  Acredito que muitos tenham ouvido falar desta obra ou a tenham lido.

Confesso que eu não a li e nunca tive realmente o interesse. Sabia, por alto, que retratava Deus como uma mulher negra – o que despertava um pouco da minha curiosidade. De resto, imaginei que seria uma tentativa de converter o leitor para alguma religião específica, o que não tiraria o mérito, mas não seria o tipo de leitura que me atrairia. Porém, assistindo ao filme, percebi que a linguagem apesar de cristã era aberta e convidava a refletir sobre a vida e, é claro, sobre a forma como nos relacionamos com Deus. Confesso que nunca chorei tanto assistindo um longa metragem.

Logo depois de ver, fui pesquisar como foi a recepção do filme. Por ter ouvido falar tão pouco, eu pensei que já havia sido lançado há anos. Me surpreendi ao constatar que tinha sido lançado há poucos meses, e que a recepção foi fria e controversa. Especificamente, o filme foi duramente criticado por líderes religiosos cristãos em sua posição teológica. Que ironia não é mesmo?

De fato, A Cabana é um filme que sustenta talvez um novo tipo de religiosidade. Embora a família do protagonista seja “de Igreja”, é nítido que a história mostra que a relação com o divino é algo muito mais pessoal do que uma doutrina.  O Jesus do filme chega a dizer: “Religião dá muito trabalho. Eu não quero escravos. Eu quero amigos. Família.” Então percebe-se quem tem uma visão mais aberta, ainda que seja religioso ou adepto de qualquer doutrina, se sentirá tocado na Alma como eu me senti. O que está ali é o que tenho lido, pesquisado, entendido e ouvido no meu trabalho e em todas as minhas interações com a espiritualidade.

Aviso que a partir daqui, para quem não gosta de saber nada antes de conferir por si mesmo, o texto contém spoilers.

Preciso admitir que o filme de início não me agradou. Estava achando os personagens e todo o resto meio piegas demais até a cena do lago. Porém, gosto de histórias que me surpreendem e é isso o que o filme faz. Mas onde ele realmente me ganhou foi na cena da cozinha em que Mack (Sam Worthington), o protagonista, conversa com Papai (vulgo Deus), vivido por Otavia Spencer. O olhar e a emoção que ela transmite na sua atuação fizeram com que eu me rendesse e me apaixonasse ali mesmo.

hero_Shack-2017
Jesus, Mackenzie, Papai, Sarayu

Aliás, a decisão de chamar Deus de Papai e a representação dele como a imagem de uma vizinha de infância que costumava confortar o jovem Mack em meios aos problemas de casa, é muito interessante. O termo pelo qual Jesus se referia a Deus em aramaico era equivalente à forma como se chama um pai muito querido. Isso se perdeu um pouco na nossa tradução bíblica. Fato é, Deus é exatamente isso, algo profundamente bom e amoroso, que não faria mal a nenhum de nós por vontade própria. Nós somos extensões de Deus (que não é humano), mas como humanos, cada um de nós é um pouco Dele, e Ele está em nós. Por a natureza de Deus ser boa, quando somos a melhor versão de nós mesmos, quando nos divertimos, quando nosso coração brilha, a luz de Deus que está em nós se acende. E Ele ri conosco e em nós ao mesmo tempo.

Essa imagem pode ser um pouco difícil de entender. Ela fica representada quando Mack questiona Deus por ter abandonado Jesus, e Papai em resposta mostra em seus pulsos as marcas dos pregos. Tudo o que vivemos também está marcado em Deus. Porém – e este é um dos pontos mais sensíveis do filme – apesar de entender o amor e a presença Dele conosco, ao mesmo tempo é difícil para nós entender que Deus igualmente ama e está nos criminosos, nos assassinos, nos maus.

No encontro com A Verdade, vivida pela atriz Alice Braga, é justamente onde tudo começa a ser melhor ilustrado. Dali em diante entende-se que os atos das pessoas é de responsabilidade delas, e que todo mal possui uma raiz que não raro passa de geração em geração. Um dos personagens comenta que, onde houver livre-arbítrio há uma porta para o mal. Cabe a nós decidir. Deus não castiga ninguém, porque não poderia condenar o uso do livre-arbítrio que Ele mesmo concedeu, e não pode amar menos nenhum de seus filhos, de suas criações. E Ele não favorece uns mais que o outros, somente abre os braços a todos, para acolher, e para abençoar – até mesmo quem não acredita ou não pensa Nele.

maxresdefault (1)
A Verdade

Outra passagem muito bonita é quando Sarayu (Sumire Matsubara) reflete sobre como os homens têm vivido e resolvido as coisas, e que os conflitos e brigas na verdade deveriam ser só uma “conversa entre amigos”.

Você já parou pra pensar nisso? Independente da Cultura, e de qualquer outra características, tudo o que queremos ao redor do planeta é viver bem, em paz, ter uma família, um canto, e ser feliz. Por vezes, a mídia ou as manipulações de ideias, fazem parecer que não; que “eles” são o inimigo, ou que “nós” somos. No entanto, somos todos a mesma coisa, quer se entenda por isso seres humanos, ou espíritos criados por “Papai”.

Eu também destaco o carisma de Jesus (Aviv Alush), que se mostra um grande companheiro, e a incrível imagem do barquinho afundando que ilustra perfeitamente que onde pomos nossa atenção e nosso coração, é onde estamos. Olhar para Jesus ao invés da água negra entrando, pode representar prestar atenção nas coisas boas da vida, na fé em algo positivo e maior do que nós, e não nos fecharmos nas nossas feridas.

O filme, preciso dizer, é muito curativo eu diria. Porque ele vai falar também a todas as pessoas que estão magoadas e ressentidas, e que já passaram por essa situação em que precisam seguir em frente, e não conseguem naquele momento. Ele ajuda a entender, conforta. Foi assim a minha experiência.

Eu poderia falar tantas coisas sobre esse filme. Há tantos pequenos detalhes nele que me deixavam a todo momento “wow, isso é como eu penso!” ou “isso é como eu vi!”. Até mesmo o local onde a filha do protagonista, morta, aparece, como ela está, como ela entende o tempo. Ou então, como Papai dá a escolha a Mack no fim de voltar ou ficar com eles (porque a Luz e os guias nunca obrigam, eles sugerem, aconselha, informam, mas não obrigam). O local onde o pai de Mack aparece e a maneira da manifestação, são coisas que eu já vi acontecerem de modo semelhante. O próprio fato de como aquele cenário divino e as formas e identidades de Deus se apresentam serem relativos à Mack e suas crenças e história, para melhor ajuda-lo, por vezes é como acontece no chamado Além.

Acredito que apesar de tudo, minha preferência recaia sobre a imagem do Papai. Porque Deus é mesmo esse ser querido e deveria ser assim que o concebemos. Que Ele é bom, justo, e especialmente amoroso. As experiências das pessoas que tiveram contato com “Deus” seja na quase-morte ou no Além, sempre falam da mesma coisa, da energia de profundo amor que as envolve. E eu também tive essa experiência. Por isso é como entendo Deus: algo maior que nós, não-humano, nada como um velhinho, mas como essa enorme Luz que está em cada coisa. E se você pensar Nele representado como alguém que foi ou seja muito querido e amoroso, é uma imagem válida, é a essência da coisa.

Esse é um filme que recomendo muito, e tenho certeza que vai fazer você se emocionar e pensar que mudar sua vida é possível independente do que tenha acontecido com você. Papai está sempre conosco.

Paz e Luz sempre!

E você, o que está pensando?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s