Sobre Ser Transgênero e a Espiritualidade

Quem acessa o meu site pode ficar um pouco confuso ao se deparar com posts antigos em que eu me apresento no masculino. A verdade é que eu sou transgênero, e venho passando por este processo de transição desde 2014.

Sempre evito comentar minha vida pessoal, porém diante da realidade que nós pessoas trans enfrentamos eu decidi trazer um outro olhar sobre essa experiência a partir do que vivi e vivo. Um olhar espiritual.

No Brasil, por exemplo, onde nasci e cresci, é o país que mais mata pessoas transgênero no mundo (clique aqui); e ao mesmo tempo é o país campeão em busca por pornografia trans na internet (clique aqui). Esta é uma conta que não fecha. Incoerente.

Mas o que me colocou em maior contato com o tema dentro de uma visão espiritualista foi a história que escrevi por intuição dos Espíritos intitulado “A Minha Verdadeira Vida” (clique aqui).

Trata-se de um livro que sobre dois personagens (principais) que possuíam uma ligação muito forte em vida e se reencontram no Além: os amigos Kauê e Carlinhos. Carlinhos, ao longo da história revela-se uma mulher transexual, e no plano astral tem a chance de readequar seu corpo e sua identidade à forma como sempre se sentiu por “dentro”.

A partir disso a pergunta é:

Se a pessoa já possui uma “alma” que se identifica como de um gênero específico, por que se dá o trabalho de reencarnar num corpo diferente?

A resposta mais curta é: pela experiência.
A resposta mais longa se divide entre aprendizado e/ou natureza.

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A borboleta é um dos símbolos da comunidade trans juntamente da bandeira de cores azul, lilás e branco.

Ao reencarnar como transgênero você passa por coisas específicas que não passaria nascendo como homem ou mulher cis (aqueles que se sentem de acordo com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer). E nisso há o fator época. Nascer transgênero nos dias de hoje traz desafios que não são os mesmos de ter nascido assim há cem anos atrás e que não serão os mesmos ao nascer daqui a cem anos. Então, ao pensar espiritualmente sobre isso, você percebe que a condição de ser transgênero é apenas uma experiência diferente tanto como como ser negro, ou homossexual, ou alto, ou baixo, ou qualquer outra característica.

Se você precisou voltar assim hoje, talvez precisasse aprender algumas lições que invariavelmente vemos muitos de nós aprendendo a dura penas. Entre diferentes aprendizados posso citar:

  • Que família nem sempre é a de sangue (espiritualmente família é onde os corações se encontram e se ligam e se respeitam);
  • Que é preciso se preocupar com o seu bem mais do que com a opinião dos outros (pois pela maioria deles você jamais faria um tratamento hormonal);
  • Que nunca é tarde para ser quem você nasceu para ser (há idosos que hoje estão assumindo sua condição de transgêneros);
  • Que se comparar e depositar sua felicidade num padrão de beleza é um grande veneno (pois muitos de nós precisam descobrir a felicidade na própria diferença do corpo como muitas mulheres e homens cis também);
  • Que se você está de mal com você tudo estará sempre imerso em negatividade (quantos de nós precisam se aceitar sozinhos em primeiro lugar antes de encontrar aceitação lá fora);
  • Que podemos ser amados sendo diferentes e nas nossas diferenças tanto quanto as outras pessoas são (grande parte de nós custa a acreditar nisso);
  • Etc.

Pessoalmente eu tenho certa clareza sobre o meu motivo para ter nascido como uma mulher trans. E eu tenho certeza que há um sentido para você ter nascido como nasceu. Nada é por acaso. Até Einstein dizia que “Deus não joga dados”.

Já em termos de natureza, preciso falar de espírito. Cada espírito é diferente do outro, pode se assemelhar, mas não se repetir. Nada é totalmente idêntico. Então cada um de nós é único e sempre será ao longo da eternidade. A nossa natureza é espiritual e é a diversidade.

Há inclusive pessoas que têm mais atração afetiva por pessoas transgênero (alguns se autodenominam t-lovers), justamente por serem diferentes.

Possuímos um temperamento, dons, certas inclinações, que por mais semelhantes a de outros, serão sempre únicas. Por isso cada um tem seu caminho.

Existem espíritos que sempre encarnam numa condição de transcender. Ora, é só olhar as grandes revoluções do mundo, sejam artísticas, culturais, outras, para entender que são os diferentões que chocam e quebram o padrão do que não funciona mais. Ao reencarnar na nossa época atual, um espírito assim pode reencarnar trans pois estará expressando sua natureza transcendente – um traço espiritual que leva consigo em todas as vidas – de modo “contemporâneo”.

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Um par Two-Spirit (dois-espíritos) de índios Navajos norte-americanos.

Também me vem à mente o caso des pessoas que viviam em outros planetas onde não havia essa divisão biológica de macho e fêmea como há por aqui, ou que havia outras além desta bipolaridade (a Terra é uma experiência muito polarizadora). Ao entrar num mundo como o nosso, podem não ter como se adequarem à forma que se sentiam mais à vontade e portanto transcendem os gêneros daqui ou se tornam agênerxs.

Quero relembrar que pessoas transgênero existiram em todas as épocas e sociedades.

Diferente de hoje, muitas tribos e outras civilizações e até religiões, tinham espaço para essas pessoas (alguns até lhes chamavam de termos específicos). A maioria destes espaços era de ligação com o sagrado (mediunidade). Pessoas transgênero já foram respeitadas como grandes xamãs ou sacerdotes. Para algumas culturas era mesmo uma honra casar-se com uma dessas pessoas, ou receber uma bênção delas. Havia divindades transgênero ou que viviam em seus mitos experiências de transição de gênero. Com raridade, ainda sobrevivem algumas destas manifestações.

Nosso mundo hoje ficou um pouco carente destes exemplos de valorização de diferença que em geral foram destruídos.

E realmente acredito que a maioria de nós, trans, tenha uma predisposição ao espiritual justamente pelo traço espiritual de transcendência – de possuir essa sintonia com o que transcende, isto é, ir também além do mundo físico. Então um espírito que carrega em si este “dom”, está inclinado a não nascer em conformidade com os gêneros e orientações vigentes.

Vocês percebem como espiritualmente ser transgênero é muito mais rico do que a sociedade em geral tenta nos fazer acreditar?

Que ao invés de nos sentirmos mal, inadequados, peixe fora d’água, nós somos partes da natureza?

Que temos diferenças que não nos tornam melhores e nem piores do que ninguém, porém tão valiosos quanto os demais?

É uma pena que se fale tão pouco de modo positivo, pois ser trans está muito longe de ser pecado ou errado.

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Logun Edé, tido como um dos mais belos orixás e que alguns consideram hermafrodita.

Fazer um tratamento com hormônios é uma escolha tão pessoal quanto alguém que ama ter o cabelo loiro e o pinta, mas nasceu com cor natural preta. E é isso o que os guias reforçam espiritualmente sobre esse assunto pra mim, e só. Há quem aplique insulina todos os dias, e há quem tome hormônios todos os dias. Eis a beleza da ciência quando se alinha ao fluxo Universal de propagar o bem e melhorar a vida das pessoas.

Voltando à questão do país, acredito que o Brasil seja tão ligado ainda às mortes e procura por pornografia trans porque a natureza espiritual do Brasil é a diferença. O Brasil é inclinado ao diferente. Se fôssemos um país honesto essas mortes e pornografia velada dariam mais lugar a relacionamentos, aceitação. Mas infelizmente um dos desafios espirituais do Brasil é a honestidade. O brasileiro ainda é muito desonesto. E toda essa desonestidade se reflete num governo desonesto, corrupto – porque os governos espiritualmente refletem o povo em tudo o que tem de bom e de ruim. Por isso que para melhorar as coisas, invariavelmente, voltamos sempre a cada um de nós se melhorando e espalhando novos valores e atitudes.

Mesmo assim hoje já temos séries, novelas, histórias, com bem mais personagens trans do que antes. E aos poucos começamos a ver gente trans que se torna famosa ganhando reconhecimento. Por isso penso que uma parte do mundo está abrindo o seu coração a todos os que são diferentes de algum modo.

Espero que esse texto ajude a esclarecer um pouco quem quer que seja que esteja pensando sobre este tema numa visão espiritual. Seja você simpatizante, amigo, familiar, namorado, estudante, homem trans, mulher trans, travesti, andróginx, genderfluid, ou qualquer outra variação deste leque… Que este texto lhe ajude a dar mais valor à experiência de ser transgênero.

Porque aos olhos de Deus somos todos maravilhosos.

Paz e Luz a todos!

1 comentário Adicione o seu

  1. Anônimo disse:

    Eu sou um T-lover não assumido e em busca de uma trans que queira me amar. Eu acho que as trans são muito mais carinhosas e amorosas que as mulheres cis pois elas amam de verdade seu marido ou namorado como ele é. A mulher sempre tende à colocar mil defeitos em um homem, e muitas acabam traindo seus respectivos namorados por acharem-nos feios e fracos. Eu sou bissexual, gosto tanto de mulher quanto de transexuais. Porém prefiro as transex pois elas me passam confiança e segurança coisa que eu nunca senti com uma mulher de verdade. E a propósito, você é muito linda garota!!! 🙂

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