Sobre Ser Transgênero e a Espiritualidade

Quem acessa o meu site pode ficar um pouco confuso ao se deparar com posts antigos em que eu me apresento no masculino. Um deles, inclusive, conta como descobri que eu tinha uma sensibilidade mais acentuada (“Como Eu Descobri Que Era Sensitivo“).

A verdade é que eu sou transgênero, e venho passando por este processo de transição há cerca de três anos. Eu sempre evitei de comentar muito sobre a minha vida pessoal aqui, porém diante da realidade que nós, pessoas trans, enfrentamos especialmente no Brasil, decidi trazer um novo olhar sobre essa experiência a partir do que eu vivi e vivo. Um olhar espiritual.

Infelizmente, o Brasil é o país que mais mata pessoas transgênero no mundo (clique aqui). Ao mesmo tempo é o país campeão em busca por pornografia trans na internet (clique aqui). Esta é uma conta que não fecha. Incoerente.

Eu levei muito tempo tentando compreender por que eu era tão diferente das outras pessoas. E a resposta que mais importava a mim como espiritualista era, logicamente, aquela que pudesse me trazer um sentido maior – não somente as explicações psicológicas ou biológicas. Eu tinha alguma noção da existência de pessoas transgênero na História. Porém, o que me colocou em maior contato com o tema foi a história que escrevi no ano passado.

“A Minha Verdadeira Vida” é um livro que chegou pelos espíritos através da minha intuição. Ele traz dois personagens principais que possuem uma ligação muito forte e que acabam se reencontrando no além: os amigos Kauê e Carlinhos. Carlinhos, contudo, revela-se uma mulher transexual ao longo da história, enquanto readequa no plano astral o seu corpo e a sua identidade à forma como sempre se sentiu por “dentro”. Você pode ler gratuitamente a história que está sendo publicada diariamente no Wattpad (clique aqui).

Então a pergunta é: Se a pessoa já possui uma “alma” que se identifica como de um gênero específico, por que se dá o trabalho de reencarnar num corpo diferente?

A resposta mais curta é: pela experiência.
A resposta mais longa se divide entre aprendizado ou natureza, isto quando não estão juntos.

Diante do Universo o tempo não existe. E absolutamente tudo caminha para a evolução. Se está em evolução, significa que tudo e todos estão dentro de um movimento para se tornarem cada vez melhores. Isso inclui viver melhor. O espírito nasce no Universo e vai passando por experiências. O que chamamos de bom ou ruim são apenas caminhos diferentes que provocam prazer ou sofrimento. Há momentos em que não conseguimos avançar de nenhum jeito pelo amor, então acabamos avançando pela dor.

Ao reencarnar como transgênero, você passa por coisas específicas que não passaria nascendo como homem ou mulher cis (aqueles que se sentem de acordo com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer). E além disso, há o fator época. Nascer transgênero agora traz desafios que não são os mesmos de cem anos atrás e que não serão os mesmos de daqui a cem anos. Então, ao pensar espiritualmente sobre isso, você percebe que a condição de ser transgênero é apenas uma experiência diferente tanto como como ser negro, ou homossexual, ou alto, ou baixo, ou qualquer outra característica.

Se você precisou voltar assim hoje, talvez precisasse aprender algumas lições que invariavelmente vemos muitos de nós aprendendo a dura penas. Que família nem sempre é a de sangue (espiritualmente família é onde os corações se encontram e se ligam e se respeitam);  que é preciso se preocupar com o seu bem mais do que com a opinião dos outros (pois pela maioria deles você jamais faria um tratamento hormonal); que nunca é tarde para ser quem você nasceu para ser (há idosos que hoje estão assumindo sua condição de transgêneros); que se comparar e depositar sua felicidade num padrão de beleza é um grande veneno (pois muitos de nós precisam descobrir a felicidade na própria diferença do corpo como muitas mulheres e homens cis também); que se você está de mal com você tudo estará sempre imerso em negatividade (quantos de nós precisam se aceitar sozinhos em primeiro lugar antes de encontrar aceitação lá fora); que podemos ser amados sendo diferentes e nas nossas diferenças tanto quanto as outras pessoas são (grande parte de nós custa a acreditar nisso); e eu poderia continuar citando tantas outras coisas!

Eu tenho certa clareza sobre o meu motivo pessoal de ter nascido como mulher trans. E eu tenho certeza que há um sentido para você ter nascido como nasceu. Nada é por acaso. Até Einstein dizia que “Deus não joga dados”.

Há, portanto, coisas que você aprenderá somente nascendo transgênero.

Em termos de natureza, preciso falar de espírito. Cada espírito é diferente do outro, pode se assemelhar, mas não se repetir. Nada é totalmente idêntico. Então cada um de nós é único e sempre será ao longo da eternidade. A nossa natureza é espiritual e é a diversidade. Possuímos um temperamento, dons, certas inclinações, que por mais semelhantes a de outros, serão sempre únicas. Por isso cada um tem seu caminho. Há espíritos que sempre encarnam numa condição de transcendentes. Ora, é só olhar as grandes revoluções do mundo, sejam artísticas, culturais, outras, para entender que são os diferentões que chocam e quebram aquilo que não funciona mais. Ao reencarnar na nossa época atual, um espírito assim pode reencarnar trans pois estará expressando sua natureza transcendente de modo “contemporâneo” – um traço espiritual que leva consigo em todas as vidas.

Há algumas pessoas que viveram em outros planetas onde não havia a divisão biológica de macho e fêmea, ou havia outras além desta bipolaridade (a Terra é uma experiência muito polarizadora). Ao entrar num mundo como o nosso, podem também não terem como adequar como se sentem mais à vontade, e portanto transcendem os gêneros daqui, ou mesmo se tornam agênerxs.

Preciso também relembrar que pessoas transgênero existiram em todas as épocas e sociedades. Diferente de hoje, muitas tribos e outras civilizações e até religiões, tinham espaço para essas pessoas (alguns até lhes chamavam de termos específicos). A maioria destes espaços era de ligação com o sagrado (mediunidade). Pessoas transgênero já foram respeitadas como grandes xamãs ou sacerdotes. Para algumas culturas era uma honra casar-se com uma dessas pessoas, ou receber uma bênção delas. Havia divindades transgênero ou que viviam em seus mitos experiências de transição de gênero. Com raridade, ainda sobrevivem algumas destas manifestações.

Nosso mundo hoje ficou um pouco carente destes exemplos de valorização que em geral foram destruídos. Eu acredito que a maioria de nós, trans, tenha uma predisposição ao espiritual justamente pelo traço espiritual de transcendência. De possuir essa sintonia com o que transcende, isto é, ir também além do mundo físico.  Então um espírito que carrega em si este “dom”, está inclinado a não nascer em conformidade com os gêneros vigentes.

Vou explorar mais, e talvez até ser um pouco polêmica.
Há pessoas que se sentem atraídas por pessoas transgênero.

Eu acredito que o espírito dessas pessoas tenha uma inclinação a gostarem destes espíritos cujo a natureza é transcender. Gostar é coisa de alma mesmo que por aqui tenhamos o corpo físico no meio do caminho. Alguns, como os chamados translovers ou t-lovers, homens e mulheres que sentem atração e têm orientação sexual e/ou afetiva por trans, tanto quanto ou mais do que por pessoas cis (e há pesquisas científicas que comprovam isso), sem saberem explicar o motivo, vivem sendo discriminados e massacrados por essa característica. Acho que a atriz transexual Laverne Cox falava algo semelhante ao pedir que os homens que gostam de trans saíssem do armário por também serem especiais (clique aqui). Não há nada de errado em amar e/ou desejar uma pessoa transgênero, transexual, travesti. E ninguém deve ser recriminado por isso.

Vocês percebem como espiritualmente ser transgênero é muito mais rico do que a sociedade em geral tenta nos fazer acreditar? Que ao invés de nos sentirmos mal, inadequados, peixe fora d’água, nós somos partes da natureza? Que temos diferenças que não nos tornam melhores e nem piores do que ninguém, porém tão valiosos quanto os demais? É uma pena que se fale tão pouco sobre isso. Ser trans está muito longe de ser pecado ou errado.

Da mesma forma eu sou radicalmente contra a ideia de Karma para falar sobre o assunto. Primeiro porque karma não é algo que aconteceu e agora estamos pagando, e sim uma atitude ou crença ruins que continuam criando um resultado de sofrimento. Por esse erro de compreensão, muitos podem assimilar uma ideia distorcida de que nascer transgênero é um castigo, e isto me deixa muito braba.

Se o Universo evolui para o melhor, nossas vidas apontam para a felicidade. Não gostamos do sofrimento. Você acha que evolui mais uma pessoa transgênero que acha que está pagando um “karma” de outra vida agora, e que por isso deve se conformar com o corpo que nasceu… Ou uma pessoa transgênero que entende que precisa enfrentar os desafios e se transformar dentro dos recursos que sua época oferece e ser mais forte, se valorizando, se amando? E quem torna o mundo melhor, uma pessoa reprimida e triste, ou uma pessoa exuberante e feliz? A resposta é óbvia e ninguém fala sobre isso. Deus nos criou para a felicidade, e nos deu o livre-arbítrio para viver experiências que nos dão a consciência de quem somos e de como chegar a isso.  Deus não dá o livre-arbítrio para depois castigar ou favorecer ninguém, seria um contrassenso (uma sacanagem). Deus deu o poder de criar e mudar e melhorar suas vidas e todos nós. E por fim, quem é feliz transborda luz e irradia vibrações que inspiram o mundo e os outros a melhorarem.

Fazer um tratamento com hormônios é uma escolha tão pessoal quanto alguém que ama ter o cabelo loiro e o pinta, mas nasceu com cor natural preta. Espiritualmente os guias sempre frisaram muito isso pra mim, e é só isso. Há quem aplique insulina todos os dias, e há quem tome hormônios todos os dias. Eis a beleza da ciência quando se alinha ao fluxo Universal de propagar o bem e melhorar a vida das pessoas.

Para concluir este texto o que eu lembraria a todos os meus irmãos transgêneros que estão perdidos por aí, pensando em acabar com suas vidas, ou vivendo em situações de vulnerabilidade: vocês são especiais. Há algo muito bonito em ser como você é. A lei espiritual da vida diz: a vida te trata como você se trata, você está onde você se põe. Se as pessoas estão sendo más com você ou não te aceitam… Ignore. Não dê peso. Não dependa de opiniões. Seja o primeiro a ser bom para si mesmo, amoroso consigo mesmo, sem se rejeitar, sem se criticar, sem se condenar, se curtindo muito, se achando “bah que legal que sou diferente!“… Eu sei que é difícil tirar todas as ideias más que nos colocaram na cabeça, mas é necessário que isso aconteça. Se não, teremos de aprender na dor. Tudo que fizermos por nós, a vida vai fazer – de bom e de mal. Quanto mais positivos formos sobre nós e essa experiência, mais encontraremos pessoas positivas, mas influenciaremos a realidade coletiva a ficar mais positiva sobre nós, mais iremos propagar uma vibração que irá inspirar avanços científicos, jurídicos, sociais, que nos favorecerão. Não se compare, porque isso é antinatural, seja você, do seu gosto, pra você. E nunca, nunca seja maldoso com outra pessoa transgênero, mesmo que ela esteja sendo, porque o mal que fazemos pro mundo, fazemos para nós. Se somos partes de Deus, somos Um Só.

Acredito que o Brasil seja tão ligado ainda às mortes e procuras por pornô trans, porque a natureza espiritual do Brasil é a diferença. O Brasil é inclinado ao diferente. Se fôssemos um país honesto essas mortes e pornografia velada, dariam mais lugar a relacionamentos, aceitação. Mas infelizmente um dos desafios espirituais do Brasil é a honestidade. O brasileiro ainda é muito desonesto. E toda essa desonestidade se reflete num governo desonesto, corrupto – porque os governos espiritualmente refletem o povo em tudo o que tem de bom e de ruim. Por isso que para melhorar as coisas, invariavelmente, voltamos sempre a cada um de nós se melhorando e espalhando novos valores e atitudes.

Mesmo assim, a evolução não para. Hoje temos séries, novelas, histórias, cheias de personagens trans. Aos poucos começamos a ver gente trans que se torna famosa ganhando reconhecimento. E o que acho bonito a respeito disso é que quando penso nessa aceitação de nós trans, eu penso que o mundo está abrindo o seu coração a todos os que são diferentes de algum modo. Nós caminhamos por todos os que são diferentes.

Espero que esse texto ajude a esclarecer um pouco quem quer que seja que esteja pensando sobre este tema numa visão espiritual. E  antes que eu me esqueça, há no astral guias trans, e se você parar pra pensar bem até os anjos não têm sexo (apesar da cultura safadamente representá-los moços). Seja você simpatizante, amigo, familiar, namorado, estudante, homem trans, mulher trans, travesti, andróginx, genderfluid, ou qualquer outra variação deste leque… Que este texto lhe ajude a dar mais valor à experiência de ser transgênero.

Porque aos olhos de Deus somos todos maravilhosos.

Paz e Luz a todos!

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